Johnson&Johnson é condenada a pagar 4,7 bilhões de dólares por 22 casos de câncer associados ao seu talco

Veredicto em massa contra a Johnson&Johnson na batalha legal que está sendo travada nos Estados Unidos por casos de câncer de ovário em mulheres que usaram o talco da marca, um dos produtos mais emblemáticos do conglomerado de saúde. Um tribunal do Missouri condenou a empresa a pagar 4,69 bilhões de dólares (18,2 bilhões de reais) a 22 mulheres que supostamente contraíram tumores malignos depois de usar um talco com amianto vendido pela gigante dos produtos de higiene e farmácia. A empresa, que já anunciou que vai recorrer da sentença, enfrenta 9.000 processos judiciais relacionados ao uso desse produto para bebês. Esta foi a maior punição já imposta à farmacêutica por esse assunto

O júri popular decidiu que os afetados seriam compensados com 550 milhões de dólares como indenização pelos danos causados. A essa quantia, ele acrescentou mais 4.140 milhões, como sanção à empresa por não alertar aos usuários do produto de que o talco aumentava o risco de câncer de ovário.

Seis das denunciantes morreram e 17 delas não são do Missouri, um estado onde os tribunais são geralmente muito receptivos a este tipo de ação coletiva. O veredito veio depois de cinco semanas de depoimentos especializados de ambos os lados. Mark Lanier, advogado das mulheres, acusou a J&J de “encobrir por mais de 40 anos evidências da existência de amianto em seus produtos”.

A batalha legal é monumental. A Johnson&Johnson enfrenta mais de 9.000 processos nos Estados Unidos. Em sua defesa, a empresa usa o argumento de que o talco é um produto seguro e livre de amianto. A agência que supervisiona a segurança alimentar (FDA, na sigla em inglês) realizou um estudo com uma amostra do produto em que não detectou a presença dessa fibra carcinogênica. “É tudo uma conspiração”, diz Bart Williams, advogado da J&J.

Em um veredicto anterior em Los Angeles, a empresa foi condenada a pagar 417 milhões de dólares a uma mulher. Foi a sentença com o valor mais alto até agora, mas a empresa apelou com sucesso da decisão. “A ciência prevaleceu”, acrescenta Williams. A J&J anunciou que também recorrerá, imediatamente, do último veredito, porque o julgamento foi marcado por erros.

“Cada veredito contra a J&J deste tribunal que foi para o processo de recursos foi revertido e os múltiplos erros apresentados neste julgamento foram piores do que os dos processos anteriores que foram apelados com sucesso “, diz a multinacional, enquanto seu advogado lembra que algo semelhante aconteceu com os implantes de silicone. Há uma decisão recente da Suprema Corte que também impõe limites a esse tipo de processo.

Embalagens

O talco é um mineral muito próximo do amianto no processo de mineração. Nem todas as denúncias vinculam essa substância cancerígena ao câncer de ovário e, de fato, as táticas dos advogados foram mudando nos processos. Mas, neste último julgamento, a acusação argumentou que as substâncias se misturaram no processo de mineração e depois foi impossível separá-los. A J&J negou categoricamente a acusação e explicou que garante um processo limpo de purificação.

Depois da sentença, Mark Lanier pediu expressamente à J&J que retire o produto do mercado “antes que cause mais angústia, danos e mortes por esta terrível doença”. “Se a J&J insiste em vender o talco, então a embalagem deve ter uma advertência séria”, acrescenta. Ele considera que os testes utilizados pela empresa não permitem a detecção de fibras de amianto.

As ações da Johnson&Johnson, que decidiu lutar caso a caso na justiça, caíram cerca de 2,5% depois da publicação do veredito. Atualmente, existem mais de 300 processos pendentes na Califórnia e mais de 4.500 no restante dos Estados Unidos. O uso do amianto foi banido durante décadas em muitos dos países devido a sua alta toxicidade e porque a fibra é potencialmente carcinogênica.

Os estudos realizados até o momento sobre a relação entre pó de talco e câncer são pouco conclusivos. A American Cancer Society aponta, a este respeito, que alguns detectaram um algumas evidências de que pode aumentar os riscos de contrair a doença, mas há muitos outros que não conseguiram provar isso. Agarrando-se a isso, a J&J argumenta que não precisa alertar os consumidores. “Não vamos nos intimidar”, conclui Williams.

Brasil terá lei para proteger dados pessoais

O Brasil deverá contar em breve com uma lei geral de proteção de dados pessoais. O Projeto de Lei da Câmara (PLC) 53/2018, aprovado pelo Senado Federal, na última terça (10), estabelece normas para a coleta e o uso de dados dos cidadãos por empresas e órgãos do setor público, além de definir penalidades para quem fizer mau uso dessas informações.

A norma abrange dados como conteúdos compartilhados em redes sociais e aqueles destinados a formulários de cadastro, em farmácias, supermercados e outros serviços. São considerados dados pessoais aqueles capazes de identificar o titular das informações.

Pelo projeto, as empresas só poderão coletar dados essenciais aos serviços oferecidos. A ideia é aumentar a segurança dos titulares, restringindo, inclusive, o comércio das informações entre diferentes organizações.

Para infratores, a lei prevê punições como aplicação de multas e até suspensão das atividades. A advogada Flavia Lefèvre Guimarães, da Coalizão Direitos na Rede, que reúne diferentes organizações da sociedade civil, aponta que o uso incorreto dos dados pode trazer inúmeros riscos para o cidadão.

“Você pode ter um mau uso dos dados das pessoas pra, sem que elas saibam, direcionar informações, modular comportamentos ou, às vezes, discriminar, por exemplo”, explica.

Por conta disso, o compartilhamento indevido de dados considerados sensíveis – opção religiosa, orientação política ou sexual, etc – estará sujeito a penalidades mais rigorosas.

Depois que a nova norma entrar em vigor, os usuários poderão solicitar acesso aos dados registrados nas empresas e pedir correção ou exclusão das informações.

O texto do PLC prevê ainda que não será necessária uma permissão prévia em casos que envolvam a proteção da vida, o cumprimento de obrigações legais (como nos casos de segurança pública) e em procedimentos de saúde.

“O que não pode é um aplicativo de previsão de tempo pedir acesso aos seus contatos. Não faz o mínimo sentido”, pontua a coordenadora de direitos digitais da ONG Artigo 19, Laura Tresca.

Riscos

A projeto de lei surgiu após anos de intensa articulação envolvendo setores sociais, empresariais, especialistas e atores políticos. No Legislativo, a medida contou com o apoio parlamentar de diferentes partidos.

Entretanto, a coordenadora afirma que, apesar da aprovação do PL no Congresso, a sociedade civil segue em alerta por conta da possibilidade de vetos no texto.

Uma das preocupações é com a manutenção do item do PL que cria um órgão dentro do Ministério da Justiça para acolher e acompanhar os casos de infração à lei. Dos 115 países do mundo que já possuem leis de proteção de dados pessoais, somente 17 não têm um órgão com essa funcionalidade, como é o caso do Qatar.

A coordenadora argumenta que, além do Poder Judiciário, os cidadãos precisam contar com um canal efetivo de assistência. Tresca defende a manutenção do texto do PLC na íntegra.

“Vai ser um prejuízo enorme mexer em qualquer dispositivo [do PL], que já foi amplamente debatido e consensuado, tanto na Câmara quanto no Senado. A gente segue junto na campanha pra que o Temer não faça nenhum veto na lei”, reforça.

Michel Temer tem 15 dias para assinar a lei e, após a sanção, o prazo para a implementação das novas normas no país é de 18 meses.

Fonte: Brasil de Fato

Mães fazem ‘mamaço’ em Santo André pelo direito de amamentar sem impedimento

São Paulo – Um grupo de mães realizou um “mamaço”nesta quinta-feira (12), no Terminal Vila Luzita, em Santo André, no ABC Paulista, para protestar contra a ação de seguranças do local, que impediram Thaís Santina, de 21 anos, de amamentar seu filho dois dias antes. Centenas de mulheres alimentaram seus filhos em público para conscientizar a população de que amamentar é um direito, e não um atentado ao pudor, como alegaram os funcionários do terminal.

A consultora em amamentação Janaina Santina, irmã de Thaís, relata
que o objetivo do “mamaço” era conscientizar as mães sobre a importância da amamentação, e do direito de amamentar sem serem importunadas. “Serve como um alerta. Todas as mulheres que passam por isso merecem esse apoio e acolhimento”, afirmou ela à repórter Michelle Gomes, para o Seu Jornal, da TVT.

A diretora do Instituto Sonho Materno, Cristiane Vanni, foi uma das organizadoras do protesto, e destaca que as mulheres na fase da amamentação precisam de apoio, e não de repressão. “Amamentar traz inúmeros benefícios, tanto para a mãe quanto para o bebê. A gente está aqui para repudiar e ‘botar para quebrar’, porque isso não está certo. Que isso traga bons ventos para nós”, afirma Cristiane.

Durante o ato, os participantes entregaram aos passageiros do terminal um panfleto explicativo sobre a Lei 16.407/15, que trata do direito ao aleitamento materno. Quem impedir a amamentação pode ser multado em R$ 510.

Em Nota, a Suzantur, empresa que administra o terminal rodoviário, informou que, após uma varredura nas câmeras de segurança, nada foi encontrado sobre o caso, e que por isso registrou um boletim de ocorrência para a elucidação dos fatos. Entretanto, a empresa diz que repudia qualquer atitude de cerceamento do direito à livre amamentação.

Fonte: Rede Brasil Atual

Escola sem Partido vai para votação na Câmara nesta quarta

Está prevista para esta quarta-feira 11, na pauta da Câmara dos Deputados, às 14h30, a votação do Projeto de Lei Escola Sem Partido (PL 7180/14). A comissão especial criada para avaliar o projeto vai votar o parecer do relator, deputado Flavinho (PSC-SP), que apresentou um texto substitutivo a oito projetos que discorrem sobre a temática e tramitavam em conjunto.

A proposta prevê que cada sala de aula tenha um cartaz com seis deveres do professor, entre os quais não cooptar os alunos para nenhuma corrente política, ideológica ou partidária. Ao alterar a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), o texto também afasta a possibilidade da oferta de conteúdos de gênero ou orientação sexual. Ainda está previsto que os professores não incitem os alunos a participar de manifestações e que a educação seja orientada pelos valores familiares no que diz respeito a temas como educação moral, sexual e religiosa.

O texto vai ser apreciado por uma comissão especial e, caso não seja apresentado nenhum requerimento – que deve colher assinaturas de ao menos 53 parlamentares, pode ir direto para votação no Senado. No entanto, caso os parlamentares se articulem em torno do requerimento, o texto segue para o plenário da Câmara e deve ser apreciado somente após as eleições.

O coordenador licenciado da Campanha Nacional pelo Direito a Educação, Daniel Cara, não acredita que o projeto vá caminhar na Câmara, primeiro pela agenda de votações da casa e também pela presença de deputados na comissão especial contrários à proposta, “caso dos deputados Bacelar, Glauber Braga, Erika Kokay, Pompeo de Matos…temos como fazer obstrução a essa matéria”, coloca.

Mobilização

A situação mobilizou integrantes dos grupos Movimento Educação Democrática (MDE) e Professores contra o Escola sem Partido a elaborarem uma carta aberta em defesa da educação democrática. O documento registra uma manifestação contrária à aprovação das propostas legislativas pelo entendimento de que “estes projetos negam
o direito dos alunos e das alunas do Brasil a uma educação democrática, comprometida com uma sociedade justa e igualitária”. A carta está aberta para adesões e já conta com assinaturas de sindicatos dos profissionais da educação e associações científicas.

O documento afirma que a proposta em votação parte de um “pressuposto equivocado”: a de que a escolarização deve se guiar somente pela vontade e concepções morais de indivíduos e famílias. A afirmação contraria o que está previsto no artigo 205 da Constituição Federal, que afirma que afirma que a educação é dever conjunto do Estado e da família, sendo promovida com a colaboração da sociedade.

Também há críticas quanto à retirada do termo gênero e orientação sexual dos currículos, disciplinas e políticas de ensino. Segundo a carta, além de censurar debates essenciais para uma percepção mais aprofundada dos mecanismos de reprodução das desigualdades sociais no contexto escolar e na sua contestação, o impedimento dos termos censuraria todo um campo científico que se apoia sobre “gênero” enquanto uma
categoria de análise, além de discussões literárias sobre gêneros textuais, entre outros usos.

O documento é categórico ao pedir o arquivamento das propostas, “diante as inconstitucionalidades do projeto e os impactos gravíssimos à educação brasileira”. Nesta terça, véspera da votação, está previsto um twitaço/facebookaço contra o Escola sem Partido.

Raio X

O professor da Universidade Fluminense (UFF), também presidente do MDE, Fernando Penna, gravou um vídeo esclarecendo alguns pontos sobre o Escola sem Partido, como seu surgimento e desdobramento nas esferas municipal, estadual e federal. Penna fala em mais de 150 projetos tramitando no Brasil todo. O Estado de Alagoas foi o único a aprovar a Lei com o nome de Escola Livre, posteriormente suspensa por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso.

Para Penna, o Escola sem Partido procura negar a dimensão educacional das escolas. “Professores seriam apenas burocratas que transmitem conteúdos e os estudantes sua audiência cativa e passiva. Os assuntos atuais não teriam lugar nas salas de aula”, reflete o docente que entende a possível aprovação do projeto como a inserção de mais um dispositivo autoritário na já fragilizada democracia brasileira, “que ainda não lidou adequadamente com os restos da ditadura”.

O docente nem acredita na aplicabilidade da proposta pelas relações humanas que se estabelecem nas salas de aula. “Mas certamente seria uma ferramenta brutal de perseguição aos professores e estudantes que se atreverem a insistir na defesa de uma educação democrática que problematiza todas formas de desigualdade.”

Fonte: Carta Capital

Crise financeira da Petrobras é “fake news” para vender ativos, afirma economista

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que interrompeu a venda de ativos a Petrobras, foi vista pelo mercado financeiro como um entrave para a recuperação econômica da estatal brasileira. Mas economistas ouvidos pelo Brasil de Fato ponderam que a privatização de setores da companhia não é a responsável pelos recentes resultados positivos da empresa.

No primeiro trimestre deste ano, o lucro líquido da Petrobras, de R$ 6,961 bilhões, cresceu 56,43% em relação ao mesmo período do ano passado, melhor montante registrado pela empresa em um primeiro trimestre desde 2013.

Para o economista aposentado da Petrobras, Cláudio Oliveira, o que a imprensa e analistas convencionaram a chamar de recuperação econômica da Petrobras não está relacionada com a venda de ativos ou com a nova política de preços da estatal. 

“A disponibilidade de recursos da Petrobras é enorme. A capacidade de geração, de recursos de caixa da Petrobras, é maior do que qualquer grande petroleira do mundo. É uma excepcional geradora de caixa. A empresa não tem nenhum problema financeiro”, diz o economista.

Pedro Parente, que entrou na presidência da estatal em 2016 com o governo Michel Temer (MDB) e pediu demissão após a greve dos caminhoneiros, assumiu a empresa com R$ 21 bilhões em caixa — número alto quando comparado ao caixa de outras petrolíferas internacionais. No mesmo ano, a multinacional Exxon possuía US$ 3,2 bilhões em caixa e a estadunidense Chevron, US$ 4,81 bilhões.

O economista chama a atenção para o fato de que a liquidez corrente da companhia,  indicador financeiro que avalia a possibilidade de uma empresa quitar suas obrigações com terceiros, registrar números acima de 1,50 nos últimos seis anos. Isso significa que, a cada R$ 1 que a Petrobras tinha para pagar para terceiros a curto prazo, ela possuía, em média, de R$ 1,50 disponível.

Ele afirma que o saldo positivo do trimestre é fruto dos US$ 250 bilhões investidos entre 2009 a 2014 — e que começam a aparecer nas resultados da companhia neste ano.

O economista Rodrigo Leão, diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustível (INEEP), afirma que houve um “superdimensionamento” de dificuldades da empresa, como a queda do preço do petróleo.

“Se a gente pegar os resultados operacionais da Petrobras, descontando a questão contábil e financeira, ela não teve prejuízo em nenhum ano. Ela teve prejuízo no refino, durante uma época, mas, no agregado, quando você soma todas as áreas, ela não chegou a ter prejuízo”, pontuou.

Fake news

Cláudio Oliveira classifica como “fake news” as análises que afirmaram Petrobras tinha uma “dívida impagável” e dependeria de acordo judicial para manter sua lucratividade.

“Para mim, o que eles fizeram foi lançar uma notícia falsa e mentirosa a respeito da empresa e o assunto virou verdade para a população. Eles justificam as  vendas de ativos dizendo que há necessidade financeira”, apontou o economista.

Ele também lembra que a Petrobras adiantou recursos para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, ainda assim, terminou o ano de 2017 com mais de US$ 22,52 bilhões em caixa.

Ele diferencia o setor operacional da empresa com a perda valor de mercado da empresa: “Se você olhar a evolução da receita da Petrobras, a liquidez corrente ou a geração de caixa, você vai ver que não tem relação nenhuma com o valor das ações na bolsa. A Bolsa é um mercado separado de apostas”, pontua.

A meta da Petrobras é atingir US$ 21 bilhões em ativos entre 2017 e 2018. A companhia somou, até agora, cerca de US$ 4,8 bilhões com as transações que foram interrompidas por decisão do ministro Ricardo Lewandowski que privatizações precisam ser aprovadas pelo Legislativo.

Fonte: Brasil de Fato

Operários que trabalhavam em apartamentos de luxo eram mantidos em condição de escravos

Doze homens que trabalham com construção civil em apartamentos de luxo em Fortaleza foram encontrados vivendo em condições análogas a de escravo. Agentes da Polícia Federal e auditores do Ministério Público do Trabalho (MPT) encontraram os trabalhadores num alojamento com péssimas condições nesta quarta-feira (11).

De acordo com informações do G1, os fiscais do MPT indicaram que os trabalhadores “dormiam em redes e camas improvisadas, com chão ainda no reboco, cozinha suja e o lixo depositado em uma vala. Havia um único banheiro para todos eles, apenas com um chuveiro. As necessidades fisiológicas eram feitas no matagal existente na área exterior do prédio”.

Os operários viviam no local há pelo menos sete anos, recebiam menos de um salário mínimo e não tinham quaisquer direitos trabalhistas. Os agentes vão identificar os empregadores, rescindir os contratos e ajuizar ações para cobrar os direitos.

Segundo a ONG Repórter Brasil, a construção civil é o setor que lidera as inclusões na “lista suja” do trabalho escravo em número de vítimas. O cadastro foi divulgado em abril pela Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo (DETRAE) do Ministério do Trabalho. A lista traz o nome de 165 empregadores, entre empresas e pessoas físicas, responsáveis por manter 2.264 trabalhadores em situação análoga à escrava. No setor da construção civil, foram encontrados 74 trabalhadores nessas condições, mantidos nessa situação por cinco empresas.

Fonte: Revista Forum

Nem 6% dos presos em flagrante voltam a ser detidos mostra levantamento inédito

Fonte: The Intercept Brasil

Como combater a influência de ‘bots’ e ‘fake news’ nas eleições?

Desde a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, no fim de 2016, o uso de notícias falsas em redes sociais para manipular a opinião públicatornou-se uma preocupação em diversos países, incluindo o Brasil. Com a proximidade do pleito presidencial de outubro, há no Congresso diversos projetos de lei para coibir essa prática.

Além das chamadas fake news, robôs ou bots também têm sido utilizados para tentar influenciar eleições. São programas de computador que realizam tarefas automatizadas, como seguir perfis de candidatos e compartilhar conteúdos em redes sociais para que pareçam mais populares.

Os principais líderes da disputa presidencial brasileira possuem entre seus seguidores no Twitter milhares de bots, segundo um levantamento da ONG InternetLab. Tanto notícias falsas quanto bots prosperam ao explorar a polarização social para fins eleitorais, destacam especialistas.

“Quando recebemos informações sobre as divisões da sociedade, isso alimenta nossos vieses de confirmação e crenças pré-existentes. Eles [bots e fake news] exploram essa parte da natureza humana”, explica Samantha Bradshaw, pesquisadora do Projeto de Propaganda Computacional da Universidade de Oxford, grupo que investiga como algoritmos e automação são utilizados nas redes sociais para manipular a população.

De acordo com pesquisa da agência We Are Social, 87,7% dos brasileiros são usuários ativos de redes sociais no Brasil e podem ser expostos a notícias falsas e bots. Atores escusos apostam na frustração de parte da população com o establishment para ganhar terreno.

“Penso nessa batalha como uma luta global entre democracia e autocracia. A democracia é uma escolha melhor, mas em todos os países há elementos antidemocráticos com os quais as pessoas estão justificadamente irritadas. E isso pode ser explorado”, afirma Nick Monaco, pesquisador em desinformação no Laboratório de Inteligência Digital do Instituto para o Futuro (EUA) e no Projeto de Propaganda Computacional, além de ex-integrante do Jigsaw, think tank do Google.

Combate a notícias falsas

Para combater as fake news, o Facebook fez parcerias com agências de checagem de fatos em 14 países, incluindo Brasil, Estados Unidos e México. Essas agências verificam conteúdo suspeito e são certificadas pela International Fact-Checking Network (IFCN), uma organização apartidária que garante imparcialidade e transparência dos verificadores.

A iniciativa do Facebook já ajudou a reduzir o alcance orgânico de fake news na plataforma em até 80%. O Brasil, contudo, foi o único país a registrar ação virulenta contra a medida. Grupos que se autodenominam liberais e de direita atacaram profissionais das agências Lupa e Aos Fatos, parceiros da rede social, acusando-os de serem “esquerdistas”.

“Lidar com notícias falsas é complexo, porque é difícil dizer objetivamente o que é verdadeiro. É claro que existem fatos, mas quando se trata de política, as coisas são muito polarizadas, e muitos valores são usados para tomar decisões sobre a democracia”, argumenta Bradshaw.

Há, entretanto, formas de combater a desinformação sem retirar conteúdos do ar, como educar usuários e fornecer mais informações sobre anunciantes.

“Tem ocorrido uma grande pressão para publicidade transparente em plataformas políticas, o que é simples de implementar. Se soubéssemos que um anúncio no Facebook foi pago por uma organização, isso faria com que questionássemos quem o financia e suas motivações”,  diz Monaco.

No passado, políticos utilizavam bots para ganhar mais seguidores e espalhar seus conteúdos. Atualmente, os robôs têm funções mais manipuladoras.

“Bots podem amplificar algo para abafar certas vozes ou debates, além de espalhar mensagens para colocá-las entre as tendências e em melhor posição em buscas do Google. Eles ajudam a burlar o sistema”, diz Bradshaw.

Bots têm ainda sido usados para atacar opositores ou jornalistas, com a intenção de silenciá-los e de criar a percepção de legitimidade pública às agressões.

“Vemos isso muito na Turquia, com campanhas de trolling patrocinadas/endossadas pelo Estado contra jornalistas, incluindo ameaças de morte e estupro feitas por bots”, afirma Monaco.

México é um exemplo de onde bots suprimem o debate. “A partir de 2012, trending hashtags foram empurradas para fora dos assuntos do momento por bots, para frustrar a organização política. Esse é um exemplo poderoso de supressão de dissenso, de protestos e de liberdade de expressão por meio da automação”, aponta Monaco.

No contexto de eleições, os bots semeiam confusão e “envenenam” hashtags populares, tornando-as menos relevantes, por exemplo, ao tuitá-las com fotos de gatos.

Embora um estudo do Massachusetts Institute of Technology (MIT) indique que humanos divulgam notícias falsas no Twitter de forma muito mais rápida do que bots, esses robôs também espalham fake news.

“Alguns bots tentam entrar em redes de pessoas reais para serem vistos como usuários legítimos. Eles não vão retuitar algo 100 vezes, mas enviam estrategicamente notícias falsas que acabam compartilhadas por humanos. É quando os bots são realmente efetivos, pois conseguiram que uma pessoa lesse a história ao invés de apenas compartilhá-la em sua própria rede isolada de bots”, conclui Bradshaw.

O Twitter já fez mudanças para limitar o impacto de notícias falsas e bots. A empresa proibiu a divulgação de conteúdo idêntico por várias contas do TweetDeck, um aplicativo para gerenciar tuítes, além de vir removendo contas suspeitas.

“Gostaria de ver o Twitter tornando bots transparentes, marcando-os com um pequeno bot emoji. Isso não seria difícil e teria benefícios tangíveis”, afirma Monaco. “Se você visse que algo foi retuitado por 10 mil bots e três humanos, seria mais crítico.”

Fonte: Carta Capital

Maia confirma que privatização da Eletrobras não será votada neste ano

por Antonio Mello

Já passava das 22h desta terça-feira (10/07), após mais um exaustivo dia de negociações para desobstruir a pauta de votações da Câmara dos Deputados, quando o Presidente da casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), declarou enfaticamente ao Deputado Orlando Silva (PC do B-SP), “em homenagem ao acordo que fizemos na semana passada, conforme eu tinha lhe prometido primeiro, antes da conversa que eu tive com outros líderes, eu lhe informo e deixo claro, que nosso acordo em relação à não votação do PL da Eletrobras, está garantido e será conduzido dessa forma por esta presidência, e nós não votaremos o PL da Eletrobras este ano”.

A afirmação foi tomada com certa surpresa por uma parte dos deputados e comemorada por outros, mas a avaliação geral é de que a decisão de Maia foi a mais acertada para o momento político.

Prestes a sofrer uma debandada por conta do início das campanhas para a eleição de outubro, na qual a maioria dos deputados tenta se reeleger, a Câmara vinha sofrendo sucessivos travamentos e obstruções nas votações de Medidas Provisórias importantes para o Governo. Não restou outra opção ao Presidente da casa, senão tirar uma carta da manga. Reuniu-se com lideranças e garantiu que, caso as votações fossem desobstruídas, a votação da PL 9463, que trata da privatização da Eletrobras, seria retirada da pauta de votações para este ano.

A notícia foi comemorada com moderação, tanto por representantes dos empregados do Grupo Eletrobras, quanto por parlamentares da oposição. “Essa decisão foi muito importante para todos os trabalhadores que lutavam contra a privatização, já que o Projeto de Lei correu dentro de uma Comissão terminativa e isso trazia o risco de que o mérito não fosse votado no plenário da Câmara, indo direto para o Senado, já com um relatório pronto”, esclareceu Victor Costa, Diretor da Associação dos Empregados de Furnas (ASEF). Já o ex-Conselheiro de Administração de Furnas, Felipe Chaves, foi mais enfático, declarando que “o PL9463 tinha uma péssima modelagem, com fins espúrios e eleitoreiros. Agora, os candidatos à presidência da República devem se posicionar publicamente sobre a entrega ou não de ativos estratégicos”.

O Coordenador do Coletivo Nacional dos Eletricitários (CNE), entidade responsável pela recente greve da categoria, Wellington Diniz, foi bastante comedido no tom da sua comemoração: “A vitória é parcial e importante, mas nossa luta não acabou. Seguiremos firmes até a instalação de um governo legítimo, que respeite o estado nacional e o patrimônio do povo brasileiro”. Tom semelhante ao adotado pelo Deputado Alessando Molon (PSOL-RJ), um dos parlamentares mais contundentes contrários ao processo: “É uma vitória parcial, porque nós queríamos que o projeto fosse retirado da Câmara pelo Governo. Portanto, vencemos uma batalha, mas ainda não a guerra”, comemorou.

A decisão de Maia sacramenta o que já era esperado, tanto na esfera política, quanto pelo mercado. O processo de privatização da Eletrobras vinha claramente definhando junto com a popularidade do Governo Temer e a imagem do Presidente da Eletrobras, Wilson Pinto Ferreira Jr, envolvido em uma série de irregularidades e denúncias, chegando a ser ridicularizado pelos seus subordinados em circunstâncias solenes.

Fonte: Revista Forum

‘Quando alguém me diz que agrotóxicos não fazem mal, eu mostro minhas mãos’

ÉDI ALMEIDA É filho de agrônomo. Foi natural que seguisse o caminho do pai, trabalhando na fiscalização de agrotóxicos no campo na região do Vale do São Francisco, um dos principais pólos produtores de frutas para exportação do país.

A proximidade com o tema – ele também estudou na universidade sobre os riscos do consumo irregular de agrotóxicos –, no entanto, não o livrou de sentir na pele os efeitos devastantes dos produtos. Desde o ano passado, Almeida se recupera de uma polineuropatia crônica,  problema de saúde que o fez sentir paralisia nas pernas; depois, os nervos dos braços foram afetados, obrigando-o a passar por duas cirurgias.

Almeida conta que não foi o único a sofrer com o manuseio dos produtos, mesmo seguindo todas as recomendações dos fabricantes. Outro colega, que trabalha com o mesmo tipo de agrotóxico que ele – um inseticida do grupo dos organofosforados, em grande parte proibidos nos EUA e na Europa – teve o mesmo problema. Alguns inseticidas desse grupo já foram banidos pela Anvisa, mas outros seguem no mercado expondo pessoas a casos clínicos de fadiga mentaltranstornos mentaissuicídios e predisposição ao câncer.

Almeida conhecia bem os riscos dos produtos, e usava todos os recursos para a sua proteção. Ainda assim, está convencido de que foi afetado. Ele contou sua história ao The Intercept Brasil.

M eu pai é agrônomo. E filho de peixe, né? Entrei em Agronomia em 2006. Eu fiz um concurso para trabalhar perto do meu pai e passei. Fiz especialização em perícia ambiental em 2015. E, ano passado, finalizei o mestrado em agronomia na área de inseticidas botânicos. Meu objetivo era pesquisar ferramentas alternativas para o controle da mosca das frutas. Eu trabalho com fiscalização de agrotóxicos em campo.

Em setembro do ano passado eu tive uma paralisia parcial no pé. Os dedos paralisaram. O médico disse que poderia ser coluna, pressão no nervo, ou problema neurológico. Fizemos exames na coluna, não deu nada. O problema era na perna esquerda, mas o médico pediu exame nas duas. A direita estava alterada também. Tudo comprometido. Os exames acusaram uma polineuropatia crônica e uma mononeuropatia.

Quando voltei ao médico, ele me encaminhou para o neuro e me pediu um exame completo. Meus braços também tinham sido afetados. E o médico disse: ‘você está com uma polineuropatia séria’. Esse problema pode ser causado por vários fatores, desde diabetes até alcoolismo em último estágio. Eu fiz mais de 20 exames, sangue, doenças degenerativas, tudo negativo. Fiz o teste de colinesterase, que é o que detecta intoxicação por agrotóxicos. Deu baixo. Aí o médico me passou um remédio para dor e para o nervo voltar ao normal.

Ele disse que o meu problema foi causado por agrotóxicos. Não tem diagnóstico laboratorial. É clínico. Ele me pediu para me afastar do campo e ficar só no escritório.

A neuropatia é tipo uma inflamação nos nervos. Dificulta a atividade neurológica. Quando você força um nervo, ele incha. E como eu fiquei muito no escritório, acabei desenvolvendo uma lesão por esforço repetitivo nas duas mãos.

O ortopedista disse que nunca tinha visto um caso desse. Perdi quase 100% de massa muscular em uma das mãos. Fiz duas cirurgias de túnel de carpo, uma em cada pulso. Quando fiz a primeira, ele viu que tava muito comprometida. Se eu demorasse mais, perderia o movimento.

O médico mencionou a possibilidade de intoxicação. Ele perguntou: “você trabalha com o que?”. Eu falei que trabalho com fiscalização de agrotóxicos. “Então é isso”, ele disse. “Rapaz, isso é muito sério”. “O que causa isso é justamente inseticida. Porque o modo de ação desse tipo de agrotóxico é no sistema nervoso dos insetos”.

Eu e os meus colegas temos contato indireto. Por mais que a gente use equipamento, máscara, luva, o vapor do produto é absorvido pela pele.

Todas as outras possíveis causas deram negativo nos exames. A intoxicação por agrotóxico é difícil de comprovar laboratorialmente. É um quadro clínico, há uma série de indícios. E muitos médicos muitas vezes não querem cravar que foi por agrotóxico. É uma coisa silenciosa. Muita gente pode ter o problema e não sabe. O meu caso era crônico, foi uma intoxicação lenta. Mas conheço gente que teve intoxicação aguda e também teve neuropatia, igual a mim.

Nós usamos equipamento de proteção, temos tudo. Mas o produto é absorvido pela pele. Sabemos que é um produto tóxico. Mas é muito complicado.

Uso irregular

Na nossa região tem muita gente que usa agrotóxicos de forma irregular. A gente fiscaliza. São muitos pequenos produtores, muitos até analfabetos. São pessoas que não têm noção. Eles sabem do efeito rápido: se causa alguma coisa na hora, sabem que é ruim. Mas quando é crônico, a longo prazo, eles não percebem. A gente orienta, pune, multa. Mas precisamos trabalhar na orientação. É uma questão cultural.

Eu trabalho desde 2011 com isso e posso dizer que melhorou muito. Hoje os produtores aplicam na hora certa, com proteção. Antes eles simplesmente aplicavam de shorts, chinelo. Tem alguns produtos que demoram mais para fazer efeito e o produtor aplicava mais e mais veneno até matar a lagarta. Hoje mudou. Mas a gente tem a percepção que piorou porque estamos tendo contato com problemas que começaram há 10 anos. Eu estou na área e acho que zerar o uso de agrotóxicos no Brasil é impossível. No nosso atual modelo de produção, impossível. Acho que lutar pelo uso correto já seria bom.

E, mesmo que você siga as regras e minimize os riscos, eles sempre existem. A aplicação aérea de agrotóxicos, por exemplo, faz com que a maior parte do produto não atinja o alvo. É um método que é um crime. Trabalhos mostram que que contamina água de escolas. Contamina leite materno. Pode aplicar? Pode. Estava dentro das regras? Estava. Mas contaminou. Por mais que você respeite as regras, ainda há o risco.

Eu coordeno um programa em que de 60% a 80% do controle de pragas é alternativo. O meu mestrado foi nessa área. Para acabar com as moscas, basta tirar os frutos maduros da área. Mas o pessoal quer aplicar produto químico, porque não acreditam. E não tô falando de analfabeto. Tô falando de agrônomo.

O lobby da indústria

projeto de lei acho um crime. Se a gente tem a Anvisa contra, o Ibama contra, pesquisas que mostram os riscos para saúde… O meu discurso é parecido com os antibióticos. O consumo exagerado cria superbactérias. Se os antibióticos fossem usados da forma correta, não teria essa resistência das bactérias. Com agrotóxicos é a mesma coisa. Se a gente usasse do jeito certo e buscasse métodos alternativos, não teríamos problema. Mas o lobby das empresas de agrotóxicos é muito grande.

Já entrei em palestras que eram quase lavagem cerebral. Tenho ex-colegas de faculdade, que eram chamados de verdinhos, ativistas ambientais, que foram trabalhar para empresas de agrotóxicos. Eu sou mais político. Acho que a gente só conseguiria zerar o uso com uma revolução muito grande, uma guerra. Eu acho que é preciso ir aos poucos.

Às vezes a indústria diz “não tem alternativa, só tem esse produto”. E no grupo de colegas formados a gente ouve absurdos. É um crime. A indústria já fez lavagem cerebral em quem tem graduação, mestrado, doutorado. Imagina em quem não tem estudo. E a gente tem um modelo econômico que força o uso. Se a gente produzisse alimento para consumo interno, teríamos mais cuidado.

Em termos de produção agrícola, o Brasil é uma colônia. A gente não produz comida, produz commodity e manda para fora. Se a gente produzisse alimentos, hortaliças etc, a população estaria mais atenta. Precisa conscientizar os produtores e os consumidores. Mesmo que a gente não consuma aqui, o ambiente está sendo contaminado. Precisamos conscientizar a sociedade para que ela também atue como fiscal. E temos que investir em alternativas.

Em 2016 comecei um curso de administração. Eu queria trabalhar na área de controladoria e auditoria. Depois que eu tive esse problema, me disseram que eu sou um exemplo vivo da área de sustentabilidade. E eu estou estudando para mostrar que o nosso modelo é insustentável.

Eu acho que temos de tirar proveito positivo desse tipo de experiência. Eu tenho um relacionamento bom com meus colegas e me orgulho da função que eu exerço. Quando uma pessoa diz pra mim “agrotóxicos não fazem mal”, eu digo: “eu tenho uma marca nas mãos que mostra que fazem”. É um instrumento a mais para o meu trabalho. Se fez mal para mim, que tenho consciência, imagina para quem não tem e está no campo.

Fonte: The Intercept Brasil